A CES 2026 consolidou um ponto de virada

Na CES 2026 ter IA deixou de ser diferencial e virou pré-requisito, enquanto a vantagem real passou a estar em como a IA se integra ao produto, ao ecossistema e ao uso diário.​
Em vez de olhar a feira como uma coleção de gadgets, este artigo trata a CES 2026 como um mapa de infraestrutura: chips e plataformas, IA no dispositivo, automação doméstica, agentes e a transição da IA para o mundo físico.

​O novo básico

IA em todo lugar não basta

Em 2026, a conversa ficou menos sobre “o que a IA consegue fazer” e mais sobre “o que o produto entrega sem atrito”, porque o usuário comum não quer configurar dez coisas para ganhar um benefício pequeno.
Isso explica por que tantos anúncios se apoiam em três promessas recorrentes: simplificar rotinas, antecipar necessidades e reduzir fricção entre dispositivos.

Na prática, a CES passa a refletir um mercado onde o software (experiência, automações, interoperabilidade, privacidade) pesa tanto quanto o hardware.
E, quando a IA passa a operar no mundo real, em robôs, carros, eletrodomésticos e fábricas, “confiabilidade” vira parte do produto, não um detalhe.

CES Foundry

IA como pavilhão e não como recurso

Um bom termômetro do peso do tema é a criação do CES Foundry como um destino dedicado a IA e computação quântica, com demos ao vivo, dois palcos e foco em networking.​
A descrição oficial posiciona o Foundry como lugar onde líderes emergentes e empresas estabelecidas convergem para discutir como IA e a computação quântica impactam a nossa vida, trabalho e conexões.​ Isso não é só organização de evento, é uma pista do que a indústria considera “camada base” para os próximos ciclos de produto.
Quando IA ganha espaço físico e programação própria, ela deixa de ser uma categoria e vira o “idioma” do evento.

Pavilhão CES Foundry na CES 2026 dedicado a inteligência artificial e
computação quântica, com demos e sessões ao vivo.

Agentes

A IA que deixa de responder e passa a executar

Se 2023 e 2024 foi a fase do “chat”, 2025 e 2026 sinaliza uma evolução: IA que não apenas responde, mas executa tarefas e coordena fluxos.
O próprio programa de treinamentos da CES coloca “Understanding AI Agents” como sessão formal, indicando que agentes viraram assunto prático, inclusive para negócios.​

Na agenda oficial, o foco declarado é acelerar a adoção real de IA em pequenas e médias empresas com workshops interativos, o que reforça a mudança de “curiosidade” para “implementação”.​
Também aparece um treinamento voltado a confiança e valor rápido, “Inteligência Artificial Confiável: O Guia de Adoção para Obter Valor em 90 Dias” (“AI You Can Trust: The Adoption Checklist to Get Value in 90 Days”), que traduz bem a ansiedade de 2026, chegar em resultados melhores sem riscos.​

O leitor que cobre tecnologia (ou compra tecnologia) pode transformar isso em um filtro simples: produtos “com IA” que exigem muito ajuste manual estão na fase errada do ciclo.
Os que tendem a escalar são os que colocam a IA para operar nos bastidores, com poucos pontos de decisão, e deixam o humano no controle quando importa.

Demonstração de agentes de IA executando tarefas automatizadas e
coordenando fluxos durante a CES 2026.

Chips e plataformas

A era da arquitetura, e não do gadget

O ponto central: IA não é “um recurso”, é um custo contínuo (energia, latência, dados, manutenção) e, por isso, o hardware volta a ser protagonista, tanto no data center quanto no dispositivo.
A CES 2026 reforçou esse discurso em várias frentes: aceleração, eficiência e custo por token.

Na apresentação oficial da NVIDIA na CES 2026, Jensen Huang descreve a IA escalando para “todo domínio e todo dispositivo”, e conecta isso à necessidade de sistemas completos (chips, rede, storage e software) para eliminar gargalos e reduzir custo.​
No mesmo texto, a NVIDIA apresenta a plataforma Rubin como uma plataforma de seis chips “extreme-codesigned” e afirma que seu objetivo é reduzir drasticamente o custo de gerar tokens em comparação com a plataforma anterior.​

O detalhe que interessa para quem lê “como usuário”, a IA tende a ficar mais útil quando o custo de rodar IA cai.
Isso libera a indústria para colocar IA em mais lugares (PC, celular, carro, casa) sem transformar cada funcionalidade em uma assinatura cara ou em uma experiência lenta.

Ilustração da plataforma NVIDIA Rubin como arquitetura completa de IA
com foco em desempenho, custo por token e Physical AI.

IA no mundo físico

Da simulação ao robô, o salto de categoria

Quando IA entra em robôs, carros e ambientes industriais, muda a natureza do risco e da expectativa do usuário.
Um “erro” deixa de ser apenas uma resposta errada: pode ser um movimento errado, uma decisão errada, uma interação que quebra confiança.

Na apresentação da NVIDIA, a categoria “Physical AI” é descrita como IA “aterrada no mundo físico”, treinada com dados sintéticos em mundos virtuais antes de interagir com o real.​
O texto cita Cosmos como modelos de mundo para robótica/simulação e Alpamayo como portfólio aberto de modelos e blueprints/datasets para autonomia nível 4, incluindo simulação e raciocínio sobre ações.​

Essa ênfase em simulação tem uma leitura simples: a indústria está tentando reduzir o custo do aprendizado e aumentar segurança antes de escalar sistemas autônomos.
Para o consumidor, isso aparece como robôs domésticos mais “competentes”; para empresas, como automação e robótica com ROI mais claro.

Casa conectada

O retorno do “ecossistema” com IA costurando tudo

A smart home voltou a ser um dos lugares onde IA pode gerar utilidade tangível, porque lida com rotinas repetitivas (limpeza, energia, alimentos, segurança).
Mas a lição de anos anteriores permanece sem integração consistente, a casa conectada vira uma pilha de apps.

Aqui, vale usar um critério editorial sempre que uma marca falar “IA na casa”, procure evidências de coordenação real (interoperabilidade, automações que sobrevivem a falhas, e clareza sobre dados).
Se a proposta é “assistente doméstico”, a pergunta é: O quanto ele reduz realmente o trabalho semanal?

Casa conectada com dispositivos inteligentes integrados por
inteligência artificial para automação e orquestração de rotinas.

Um filtro prático para 2026.

Como avaliar produtos com IA?

A maioria dos compradores e leitores não precisam entender arquitetura de modelo, precisam de uma forma rápida para separar utilidade real e tangível de marketing.
Este checklist funciona bem para guias de compras e aplicações práticas:

A IA reduz o trabalho ou só adiciona uma camada nova de interação?

O produto funciona bem offline sem IA (modo básico), ou ele é dependente de nuvem e fica inútil quando essa conexão falha?

Onde os dados ficam e como o usuário controla isso (contas, permissões, histórico)?

Há automações claras e reversíveis (você entende o que está acontecendo e consegue desfazer)?

Existe um ‘custo total alto’ escondido (assinatura, acessórios, integrações obrigatórias)?

Esse tipo de checklist se conecta ao que a CES está oferecendo como treinamento, adoção prática e confiança como parte do valor.​
Quando o evento formaliza “IA em que você pode confiar” (AI you can trust) como conteúdo, fica claro que a indústria sabe que o freio agora é credibilidade e governança e não a capacidade do modelo.​

Conclusão

A CES 2026 deixa um recado direto, IA virou infraestrutura, e por isso, a disputa real migrou para execução, integração, custo, confiabilidade e experiência do usuário.​
Na próxima onda, os vencedores tendem a ser os produtos que escondem complexidade, resolvem rotinas concretas e tratam confiança (dados, transparência e controle) como parte do design, não como rodapé.


2 respostas para “CES 2026, quando a IA vira infraestrutura e o que muda na prática”

  1. […] base para os artigos mais especulativos e de longo prazo desta série sobre a CES 2026, focados em tecnologias que estão mudando a linguagem do mercado antes mesmo de chegarem ao […]

  2. […] CES 2026 a era da “IA como novidade” acabou; entramos na era da “IA como infraestrutura“. O diferencial competitivo deixou de ser um chatbot engraçadinho em um aplicativo e passou […]

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